A respeito da ópera "O Menino e a Liberdade", de Paulo Bonfim e Ronaldo Miranda, em cartaz no Theatro São Pedro.
Março/2014
O que é uma ópera?
ópera. s.f. : Peça dramática desempenhada em canto acompanhado de música.
Quando penso em ópera, imagino uma obra fantástica, esplendorosa, de cenários rebuscados, roupas majestosas e canto forte, em italiano ou alemão. Essa concepção é extremamente erudita. Nem toda ópera foi escrita por Wagner ou Verdi, da mesma forma como nem toda canção de MPB foi escrita por Jobim. Os estilos modernizam-se. Porém, hão de modernizar-se como um avanço, e não um regresso.
"O Menino e a Liberdade" foi escrita por Paulo Bonfim e musicada por Ronaldo Miranda. Juntos, esses dois artistas criaram um espetáculo que, a meu ver, assemelha-se à ópera apenas em seu estilo de canto. O restante remete ao teatro musical. Porém, podemos deixar de lado discussões sobre gênero, supondo-se que o teatro musical seja estilo moderno de ópera.
No entanto, a obra é preocupante, não por seu gênero, mas por sua qualidade. Tomemos por exemplo o enredo. Parece repleto de clichês, em que a palavra e o conceito de liberdade assumem um tom dramático e exagerado ao invés de comovente. As falas chegam a agregar humor por serem proclamadas com tanta seriedade.
Nota-se a audácia de criticar uma obra de, no que diz o programa (por sinal, maravilhosamente bem produzido, com figuras, biografias e outros requintes) de alto valor cultural. De fato, a maioria dos membros da plateia pareceram muito agradados com o espetáculo.
Entretanto, conhecendo que a porcentagem da população de sério conhecimento operístico é baixa, será correto tomar a opinião popular como válida? É claro, eu também não conheço de perto a obra dos autores, então o que digo é relativamente irrelevante. Porém, reconhecendo o valor de uma primeira impressão, mantenho um estado de confusão a respeito da ópera.
Precisaremos conhecer profundamente um autor para saber apreciá-lo? Até que ponto o moderno não invade o espaço da qualidade? Ou será o moderno desvalorizado por ser diferente?
Pensando desta forma, se "O Menino e a Liberdade" fosse a próxima ópera revolucionária, eu não o saberia: Quando penso em ópera, penso não em Ronaldo Miranda, mas em algo fantástico, esplendoroso, de cenários rebuscados e cantos fortes.
O Quamobrem
Friday, March 28, 2014
Sunday, March 23, 2014
Sugestão de leitura: "Sombras de reis barbudos"
Para inaugurar o blog uma sugestão de leitura. Trata-se do romance "Sombras de reis barbudos" do escritor brasileiro José J. Veiga (1915 - 1999). Escritor não muito citado, mas de importante contribuição para o realismo fantástico produzido no Brasil. Ao lado de Murilo Rubião é considerado um dos maiores autores em língua portuguesa do gênero. O livro em questão, de 1972, expressa, em suma, uma martelante e alegórica crítica à ditadura militar brasileira.
Li esse romance ano passado. Foi minha primeira leitura de uma obra do realismo fantástico e uma grande revelação, uma grande viagem, um mergulho. Os fatos se apresentam sempre de forma muito sensorial e pouco explicados, e o tempo parece brincar com os personagens, os lugares, as situações e com o leitor. Uma grande expedição pelo insólito tão útil para enxergar que o prosaico é vastíssimo e muitas vezes sombrio.
Na orelha da 13 ª edição do livro, Mário da Silva Brito diz "[...] Sombras de reis barbudos é uma opressiva história de terror e tensão logo fecundada por mais amplos e profundos objetivos. [...] O drama dos que perderam, a contragosto, a própria vontade e foram despersonalizados por aparatoso aparelho controlador dos seus mínimos gestos. [...]"
É realmente um romance que se move a partir do sufocamento crescente, do desespero pairante. Um pesadelo que priva a liberdade. Mas é fantástico, em sentidos diversos!
Edição atual do romance.
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